sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Palmarés do Estoril Film Festival 2009

GRANDE PRÉMIO ESTORIL FILM FESTIVAL

Dogtooth de Yorgos Lanthimos (Grécia)


PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI JOÃO BÉNARD DA COSTA

Ex-aequo

Eastern Plays de Kamen Kalev (Bulgária)

The Girl de Fredrik Edfeldt (Suécia)


PRÉMIO CINEUROPA

First of All, Felicia de Melissa de Raaf e Razvan Radulescu (Roménia)


Menção Honrosa

The Girl de Fredrik Edfeldt (Suécia)


PRÉMIO MEO – MELHOR CURTA METRAGEM

52 Procent de Rafal Skalski

The Polish National Film, TV and Theatre School (Lodz, Polónia)


Menção Honrosa

Deixar cair a noite de Jorge Jácome

Escola Superior de Teatro e Cinema (Portugal)

O homem duplicado

Moon, de Duncan Jones





Um salto para o homem, um pequeno passo para o cinema de ficção científica.

A história de um «homem que era outro» na superfície lunar

O cinema regressa à Lua, depois de todas as alunagens dos anos 70 e 80. Ao contrário das missões espaciais desses tempos, sempre reluzentes de limpeza e sem vestígios de poeiras cósmicas, Moon (estreia-se hoje, 12), o filme do britânico Duncan Jones, filho de David Bowie, mostra-nos um astronauta, Sam Rockwell, cheio de sujidade, pústulas e mazelas.

Felizmente há luar, e felizmente o cinema desperta o seu interesse pelo satélite. A última incursão pós-69 mais consistente foi em 1995, com Apollo 13, de Ron Howard, sobre a célebre missão falhada. À sua maneira, Monn, um filme de baixo orçamento, que tem feito um circuito pelos festivais (é um dos doze em competição no Estoril Film Festival) também é uma missão falhada. A premissa inicial - um astronauta, Sam Rockell, na mais esmagadoramente solitária das profissões, sem sequer a companhia da força da gravidade -redunda num registo conceptual, de thriller emocional futurista, que envolve clonagem galáctica, a resolução do problema energético global, e memórias implantadas. Onde é que nós já vimos isto? Num planeta perto de si.

Em vez do Hall-9000 há agora um calhambeque mais parecido com o robô da Disney/Pixar WallE, que emite um pequeno smile, e está coberto de post-its. É um filme de um actor só, no cúmulo da solidão intergaláctica, e... estava-se mesmo a ver: os homens sozinhos encontram-se sempre a si mesmos.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

O fantástico senhor raposo - crónica de um festival



A terapia de grupo de Juliette Binoche, a futurologia de Coppola, a pedalada de David Byrne e a omnipresença de Paulo Branco. E os filmes, acima de tudo... Crónica de um festival

Há muito que andávamos avisados. Quando a publicidade é grande, o povo desconfia. Habituámo-nos a andar com uma espécie de calculadora mental que executa automaticamente o cálculo de desconto ao superlativo. Quando diz que é extraordinário, é porque é razoável; quando diz que é óptimo, é porque é apenas bonzinho, vá; quando diz que é genial, é porque atingiu os patamares mínimos de QI; quando diz que é admirável, é porque é visível... Portanto, quando no trailer promocional do Estoril Film Festival nos diziam que o David Byrne, o vocalista e guitarrista dos lendários Talking Heads, nos podia abordar «a pedir dez euros trocados para comprar o jornal», encaramos isso com a sobranceria cínica da raposa que volta o focinho às uvas. «Ah, mas são verdes». Mas, de súbito, há uma folha seca que cai, um segundo relance, e se...? E não é que é mesmo o David Byrne, aquele que vem ali a descer tranquilamente os jardins do Casino do Estoril? Sim, é verdade, não pediu trocos a ninguém como os arrumadores das imediações, mas vinha a pedalar uma bicicleta, o que dá um encanto muito especial a este, chamemos-lhe assim, avistamento. Desde os anos 80 que o músico, vencedor de um Óscar pela banda sonora do Último Imperador (de Bernardo Bertolucci), elegeu a bicicleta como o seu meio de transporte privilegiado em Nova Iorque. Mais por conveniências pessoais, do que por motivações políticas, começou a fazer destas pedaladas um posto de observação andante nas suas viagens pelo mundo. Foi assim, em contacto directo com os sobressaltos do alcatrão, os imprevistos do trânsito, e a poucos quilómetros por hora, que Byrne captou o espírito e o ritmos de Buenos Aires, de Londres, Istambul ou são Francisco. E escreveu-os nas crónicas publicadas no livro Bicycle Diaries. E agora Lisboa, e suas proximidades, estão também debaixo dos seus pedais. Foi uma das exigências (talvez melhor será dizer pedidos) que fez à organização do festival. Que lhe pusessem à disposição uma bicicleta. Duas. Outra para a mulher, a artista plástica Cindy Sherman, com quem pedalou por aí, mesmo debaixo de chuviscos, e visionou os 12 filmes europeus em competição. O casal fez parte da composição do júri, juntamente com o compositor francês de bandas sonoras, Alexandre Desplat, (autor das músicas de filmes como A Rapariga do Brinco de Pérola, de Peter Webber, a Rainha, de Stephen Frears, ou o Fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson, filme de abertura do festival) o coreógrafo Rui Horta e o também músico e produtor Mafred Eicher, director da ECM (produtora que acaba de celebrar 40 anos e por onde já passaram nomes como Keith Jarret, Chick Corea ou Pat Metheny). À VISÃO Byrne nega que pelo facto de vertente musical ter um peso tão esmagador na composição do júri tal não influirá na probabilidade de ganhar o filme com a melhor banda sonora. «Não sei nada de probabilidade». Alexandres Desplat mostra-se mais curioso em relação às opções sonoras dos filmes: «É uma coisa que me interessa muito. Faz parte do meu trabalho ir descobrindo soluções que os outros encontram para os filmes».


E Juliette Binoche foi a primeira a pisar a passadeira - tal como dizia, aliás, a publicidade do festival. Não a vermelha, que já foi tão trilhada e macerada pelas solas arrastadas do cliché jornalístico. Mas mesmo a zebra, a passadeira para peões, em frente ao Centro de Congressos, mesmo ao lado do Casino (foi aqui que se aquartelou o festival). Como se não lhe bastasse ser a mais internacional das actrizes francesas, Juliette tem, talvez, um dos mais belos rostos do mundo, disputado pelas grandes marcas de cosméticos. E como se não fosse suficiente, também faz umas pinturas e danças. E como se tudo isto não chegasse para abastecer uma carreira de 25 anos, Juliette ainda exibe uma espécie aura, capaz de emocionar toda uma audiência - há quem lhe chame charme, há quem prefira magnetismo pessoal.... Seja o que for, o certo é que o encontro com o público, após a apresentação do documentário Juliette Binoche Dans les Yeux, realizado pela sua irmã, Marion Stalens, foi uma das sessões mais sentimentais deste festival (senão contarmos com a do Fernando Lopes). Os muitos convidados estrangeiros do festival devem ter pensado que aterraram mesmo no país do fado. Houve imensas lágrimas contidas, vozes embargadas, elogios emocionados, vindas sobretudo do sector feminino da assistência. Mais do que um momento de perguntas e respostas tornou-se numa sessão de auto-ajuda ou de terapia de grupo. A adolescente cheia de dúvidas existenciais e aspirante a actriz que quer receber palavras de alento de uma estrela, a senhora que quer saber qual é o seu «secret garden»; a mãe cuja filha de treze anos gostava muito de actuar e que pede conselhos…«O actor deve desobedecer, se obedeceres estás tramado», diz. Bem, também não falta o senhor a comentar que ela é como «o vinho do Porto, melhora com a idade». «Fucking, i’m a human being. Of corse, i’m growing up!», exclama Binoche e passa à pergunta seguinte. Educada numa família de artistas, andou durante dois anos a ser recusada em castings, até que Jean Luc Godard reparou numa foto sua. «Nesse dia estava muito zangada com o meu namorado, daí aquela intensidade no meu olhar», brinca. Lembra-se de, numa dessas audições falhadas, um realizador lhe perguntar: «’Então, queres ser actriz’? Eu respondi-lhe: ‘Não, eu já sou uma actriz’».
O documentário não é brilhante (Binoche merecia muito mais), mas dá para observar – e invejar – o grau de liberdade com que ela ousa pisar outros territórios, como a dança e a própria pintura: «Pintar é transgredir. É dizer merde à técnica».
Já antes, Juliette tinha transgredido, mas pouco, no zeloso dispositivo de distribuição de autógrafos concebido por Paulo Branco. A bicha de pessoas de livros (um álbum Portait «In-Eyes» posto à venda com as pinturas da actriz) e DVDs na mão começa a formar-se 45 minutos antes da sua chegada. Geralmente nos eventos com alguma envergadura, os jornalistas estão habituados a que exista um director que centraliza tudo, e um assessor cuja função é impedir o acesso ao director. No Estoril Film Festival Paulo Branco é ambos. Tem uma energia inesgotável. Anda por ali, dá instruções, pratica todo o género de sinalética ao seu staff, enxota os jornalistas dos sofás, encosta os fotógrafos a um canto, vai receber Binoche à entrada, manda passar à frente o deficiente. Ele é ao mesmo tempo porteiro, guarda-costas, organizador de filas, controlador de autógrafos, fiscalizador dos livros vendidos… Tão depressa se exalta, extremamente zangado, como no minuto seguinte já distribui sorrisos e simpatias. Tão depressa anda a providenciar uma caneta de feltro pedida pela actriz, como a expulsar mais caçadores de fotos com telemóvel e pretendentes a autógrafos, que tentam furtar-se a comprar o livro. Até há quem sugira que ele, durante os visionamentos, se encontra atrás do projector a dar instruções. Paulo Branco diz «só mais uma», mas Juliette acaba por dar mais duas ou três assinaturas. Até àquele senhor que pede para ela escrever «for Toni, my love»…

Tetro (estreia-se no próximo dia 19), o novo filme do Coppola, ante-estreado neste festival tem um grande arranque. Num preto e branco absolutamente poderoso (o director de fotografia é o romeno Mihai Malaimare), uma lâmpada atrai as borboletas nocturnas. Também tem uma extraordinária introdução da personagem, Tetro, um alucinado Vicent Gallo, cheio de traumas e fantasmas do passado. Ele é o homem dos holofotes e queima as asas de quem dele se aproxima. Depois de Rumble Fish, é o regresso de Coppola ao preto e branco (neste filme inverte-se a convenção, o presente retrata-se a preto e branco, e o passado a cores, numa câmara mexida, como as imagens de uma home-vídeo). É um filme multi-risco – ainda por cima, parcialmente falado em castelhano – admite o próprio, considerando a perspectiva temerosa da indústria de Hollywood. «Não conseguiria encontrar mais maneiras de perder mais dinheiro». Só que agora, explica, o próprio Coppola, ele já não faz os filmes que a indústria, quer faz os filmes que ele quer. Durante muitos anos, esteve subjugado financeiramente ao sistema. «Sentia-me uma prostituta. Tentava apaixonar-me pelo meu cliente, tentar ver os aspectos bons do projecto…Nunca conseguiria fazer um filme se de algum modo não gostasse dele» Aliás, garante, nunca voltaria a rodar algo parecido com o Apocalypse Now. «Não voltaria a fazer um filme anti-guerra com explosões e mortes. A violência excita as pessoas. Gostaria sim de fazer um filme sobre uma família num cenário de guerra, como o Iraque. Mas em que não morresse ninguém. Isso si, seria o verdadeiro filme anti-guerra».
Por isso, desta vez, realizou uma história familiar, passada na Argentina, exclusivamente por razões de ter um bom câmbio para o dólar, «nunca conseguiria suportar os custos na Europa ou em Portugal. «Por outro lado, «porque me ponho a pensar num país divertido, e simpático, com boa comida, onde não me importe de passar um ano a rodar». Vicent Gallo faz de filho que não se consegue libertar da tutela emocional e genial de um pai, um dos maiores maestro do mundo («nesta família só há lugar para um génio»). É uma espécie de nova versão de James Dean, um ser torturado e cheio de angústias: «Todos os barcos precisam da sua ratazana». Mas a emoção não passa.
Baseou-se na sua própria família, na relação com o irmão e com os filhos. Coppola casou-se aos 21 anos, porque ao contrário da maioria dos rapazes da sua idade, o que ele queria era ter filhos. É casado há 46 anos com a mesma mulher e, quando os três filhos eram pequenos, decretou que sempre que as suas rodagens levassem mais de duas semanas, que os tirava da escola e levava-os com eles. Por isso, os miúdos cresceram no set. Nas Filipinas, Sophia, conta, entretinha-se a brincar com as roupas das filmagens e Roman fazia maquilhagens sangrentas. «A sua educação escolar sofreu com isso mas aprenderam muito». Mesmo em O Padrinho era esta relação entre pais filhos e irmãos que mais atraia Coppola. «Não me interessam os gangsters. Não são mesmo boas pessoas». Tem um método para escolher os actores «geralmente são aqueles que não nos saem da cabeça no dia seguinte. É uma boa indicação. Quer dizer que pode provocar a mesma reacção nas audiências. Neste filme, pode dizer-se, Coppola descobriu um outro Leonardo DiCaprio: Alden Ehrenreich. Tinha apenas 17 anos e o realizador deu-lhe a ler Catcher in the Rye, de D.J. Salinger. Quanto a Gallo, os amigos fartaram-se de o avisar, «ele é maluco, já viste o website dele?». Mas afinal ele era «a very nice person». Apenas têm um estranho sentido de humor. Quando diz que quer vender o esperma por milhares de dólares. «As pessoas pensam que ele está a falar a sério. Ou talvez esteja mesmo… parece um bom negócio…».
Perante duas salas de 600 lugares a abarrotar de entusiasmo (Paulo Branco fez uma segunda exibição de Tetro), Coppola explicou as suas «teorias malucas» sobre o futuro do cinema. «O cinema é uma linguagem, e todas as linguagens evoluem. O cinema só não tem mudado mais depressa, porque também é um negócio e os donos do negócio não querem mudar a fórmula, como a coca-cola, querem que permaneça igual. Mas o cinema tem de ter risco». O realizador explica que estamos numa fase pela qual nunca antes passáramos na história do cinema. A revolução do digital, a facilidade com que se fazem cópias, downloads e DVDs. O futuro não está no 3D nem nos efeitos especiais. Coppola prevê uma espécie de filmes interactivos, em que cada sessão seja única e diferente. O realizador torna-se algo de parecido com um condutor de orquestras ou com o DJ, que coloca, selecciona e manobra as músicas de acordo com a assistência.
Laço Branco, de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes, e uma das ante-estreias mais aguardadas do festival define-se naquela palavra formada por justaposição e com hífen pelo meio: obra-prima e O Fabuloso Senhor Raposo, de Wes Anderson (a segunda exibição mundial), com diálogos a partir do livro de Roald Dahl (o autor de Charlie e a Fábrica de Chocolate) arrancou as gargalhadas do próprio David Byrne. Do tempo em que os animais falavam, a história conta a disputa entre uma família de raposas e três agricultores. As vozes de George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray ou Willem Dafoe contribuem para tornar esta comédia ainda mais hilariante. E, como se aprende, as raposas quando estão encurraladas encontram sempre a mesma solução: cavar, cavar, cavar.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

«Sou um dinossauro sentimental»

Encontro imediático com Fernando Lopes





Diz que é um monogâmico patológico, que está cada vez mais misógino e incompatibilizado com os telemóveis. Fernando Lopes, a propósito do seu novo filme

Teve uma situação pessoal complicada na vida, mas resolveu não fazer disso um drama. Fez antes uma comédia. Ou talvez nem isso... «É uma comédia amarga», diz Fernando Lopes que resolveu realizar Sorrisos do Destino (estreia-se hoje), depois do seu divórcio de Maria João Seixas. O filme, assumidamente biográfico, foi, diz, a melhor maneira de se salvar e conta a história de um marido (Rui Morrison), de uma mulher (Ana Padrão) e de um seu amante (Milton Lopes), interceptado por um SMS inoportuno. Há uma cena muito bonita construída com jump cuts, em que Ana Padrão vestida de negro, dá estocadas com a raquete contra a parede, com o som dissintonizado da imagem: «É uma cena de autoflagelação», explica o realizador. De resto, as personagens fartam-se de jantar, de andar de carro e de falar consigo mesmas ao espelho, e, ao longo de uma hora e meia vão pingando os nomes, as referências, as músicas, os amigos, os afectos, os lugares, as private jokes de Fernando Lopes: «Acho que um realizador se deve expor. Eu gosto de olhar para a vossa cara, espero que também gostem de olhar para a minha».

VISÃO: O que é que tem este bolero Sabor a Mi de tão especial para si, que o tem posto a tocar em tantos filmes?
FERNANDO LOPES: Pois, o Sabor a Mi tem-me acompanhado... Os boleros constituem uma espécie de segundo argumento do filme e dão-lhe um toque melodramático e quase telenovelístico. Este filme tem cinco boleros, que servem para transmitir estados de alma das personagens.

Este filme está cheio de impressões digitais suas, cinematográficas e pessoais... Quis fazer desta obra a sua geografia sentimental?
Mas isso é que é interessante. Filmar a minha geografia sentimental com as pessoas de quem eu gosto e com aquilo com que vivo à minha volta.

Dá ideia de que lhe apeteceu mais falar através da música e das referências do que de palavras... Sobretudo musicais, vai do Verdi até Wagner, passa pelo Chopin da Maria João Pires...
A minha ex-mulher é que é uma grande melómana e uma grande maníaca do Wagner. Eu não, fico-me pelo jazz, boleros e fados. Ela é uma wagneriana e eu um verdiano...

O que é que isso quer dizer?
Eu sempre disse que o Wagner é um protonazi, para a irritar...

Como no filme...
Como no filme, a mulher pensa que ele diz «Wagner é um porco nazi», mas o marido diz «proto-nazi». Por razões políticas, sempre me senti muito mais fascinado por Verdi que teve um papel fundamental na reunificação de Itália . É também por causa do Verdi [A Força do Destino] que o filme se chama assim. Nunca me esquecerei do avião de Hitler a chegar a Nuremberga ao som da música de Wagner. É uma personagem que me é particularmente antipática. Podia ter muito talento, mas era mesmo um proto-nazi.

E no entanto põe o amante a cantar uma ária de Tristão e Isolda...
É uma brincadeira. Um tipo preto a cantar Tristão e Isolda para chamar um cão... Aos cães assobia-se...

Dá a ideia de que o Rui Morrison se inspirou muito em si para compor a personagem...
Sim, este filme sou eu do princípio ao fim. O Rui é o meu alter ego. A personagem sou eu, mas também aproveitei algumas deixas dele improvisadas... Quando ele mexe o gelo do uísque com o dedo e diz ‘Good Morning, Vietnam’. Ou, quando está na casa de banho e diz «cheat, we’re steel in Saigan»...

O que é um adultério electrónico?
Imagina a quantidade de divórcios que já aconteceram por causa do telemóvel? A comunicação electrónica veio mudar o nosso comportamento sentimental e moral. A infidelidade electrónica é muito mais perversa, porque nem sempre é considerada enquanto tal.

É contra o telemóvel?
Sou. Quando entram amigos meus para jantar, digo agora telemóveis em cima da mesa para podermos jantar e conversar à vontade [nesta parte da conversa o telemóvel da jornalista desata a tocar mas é de imediato silenciado]. As pessoas deixaram de comunicar a olhar olhos nos olhos. Por causa do SMS até a nossa ortografia empobreceu... Antigamente, as declarações de amor era epistolares. Mesmo as mentiras eram bem escritas. Hoje já ninguém sabe escrever. Usam-se aqueles «k» todos. Como é que se faz uma declaração sentimental em 140 caracteres? E mente-se muito, os telemóveis servem para encobrir a verdade, diz-se ‘agora não posso, não tenho rede’ ou ‘a bateria está-se a acabar’... Na rua vêem-se pessoas a falar alto de coisas íntimas, já estive para fazer um documentário sobre isso. Os portugueses não se querem olhar na cara, não gostam de se ver ao espelho, por isso é que não vão ver os filmes portugueses.

Mas o telemóvel é um facilitador de vida...
Só para chamar a polícia e a ambulância quando a pessoa está mal e tem de ir para o hospital. Eu não tenho e-mail nem telemóvel. Quem me quiser apanhar vai ter de continuar a ligar para o telefone fixo.

Como se resiste à tecnologia?
Vou resistindo. As tecnologias de comunicação são um interferência constante na nossa vida. Somos controlados por elas. As pessoas querem um second life. E depois perde-se o telemóvel, perde-se a memória... Não tenho telemóvel, não vou à internet, não tenho e-mail, acho que os blogues são uma masturbação pessoal, por isso não tenho de os aturar.

No seu filme os homens parecem ter vontade de dançar, mas não têm par. Ou dançam com uma esfregona ou um com o outro...
Pois, devo estar a ficar cada vez mais misógino... A relação de amizade entre os homens é mais pudica, não é preciso falar muito. A amizade entre mulheres é muito complicada, eu diria mesmo, que é mais açordeira. As mulheres têm de se confessar todas umas às outras... Há sempre muitas açordas pelo meio.

Ainda se considera ‘um monogâmico patológico’?
Sou e sempre serei um monogâmico, nem consigo conceber a vida de outra maneira. Serei, portanto, um dinossauro sentimental...

Porque é que quase não há cenas de sexo nos seus filmes?
Porque há duas coisas que eu considero sagradas: o cinema e o sexo. Considero o sexo um acto tão sagrado que me parece quase impossível de mostrar. Apenas sugerir...Não farei dessas cenas de sexo à cinema português, para isso mais vale o cinema pornográfico, aí ninguém engana ninguém e penetração é penetração e por aí adiante...Se reparar bem, nos grandes filmes também não há cena de sexo.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Sai pra Rua


Encontro Imediático com Rui Simões



É autor de duas obras emblemáticas do pós-25 de Abril, de um cinema Militante. Deus Pátria Autoridade, numa severa crítica ao regime salazarista, e Bom Povo Português, um documentário sobre a revolução de 1974. Desde aí, Rui Simões tem mantido uma presença discreta, realizando inúmeros vídeos dedicados a várias artes, destacando-se um longo trabalho com a coreógrafa Olga Roriz. Com Ruas da Amargura, Rui Simões está de volta, com um olhar muito próprio sobre as franjas esquecidas da sociedade, apelando de forma convicta mas subentendida a um mundo mais justo, numa busca de personagens, nas ruas de Lisboa, da Praça da Alegria ao Jardim Constantino. Ruas da Amargura passou no Doclisboa em 2008. Chega agora às salas de cinema.

Têm sido feitos vários trabalhos sobre os sem-abrigo. Não teve receio que o filme se tornasse redundante?

Ando a fazer este filme há sete, oito anos, sem conseguir financiamento. Fiz uma primeira pesquisa, com material que nem chegou a entrar. Entretanto, nos últimos dois anos têm aparecido muitas coisas do género na televisão, ligadas ao Ano Mundial Contra a Pobreza. Mas também não me preocupou, porque o que me mostravam não era aquilo que eu queria. Há mil maneiras de contar uma história de amor. Eu estava mais interessado em encontrar personagens.

O seu filme está cheio de personagens magníficas. Partiu deliberadamente em busca delas?

Sim. Antes de mais fomos à procura da realidade que estava nas ruas. Pesquisámos durante bastante tempo. Saímos com as organizações de solidariedade social, nas carrinhas, para estarmos próximos e ver o que se passava, mesmo sem filmar. Fomos conhecendo as pessoas que estavam na rua: um processo demorado até seleccionar as personagens que queríamos acompanhar, as mais úteis para a construção do filme. Chegámos a este grupo: três voluntários e seis pessoas ligadas à rua. Foram aquelas que pela sua diversidade de experiências se tornaram mais representativas. Depois a programação foi complicada, porque eles nem sempre estão nos mesmos sítios e não se pode combinar nada com eles. Não há uma produção de horários a cumprir.


Foi simples convencê-los a participar?

Sim, apresentámos o projecto e alinharam, porque fomos estabelecendo relações de confiança com as pessoas.


Apenas quis mostrar o que se passa ou têm alguma intenção superior?

Não sei. O filme é um conjunto de elementos que poderão deixar marcas nos espectadores. E a sociedade é que vai decidir por si própria. Não posso estar a apontar caminhos, mas quero articular um discurso que permita tocar as pessoas e provocar uma reflexão sobre o tema. Custa-me aceitar que uma sociedade que vai a Marte não tenha imaginação para resolver este tipo de problemas. Embora haja muitas organizações a tratar destes assuntos, parece que não há nada. E, na actual conjuntura de crise económica, torna-se muito fácil cair na rua. Devia-se fazer mais. Se o filme puder alertar para isso já não é mau.


Paira sempre a dúvida se cair na rua é uma inevitabilidade ou uma opção...

É uma opção depois da derrota. A partir do momento em que a pessoa não consegue vir à tona de água, deixa-se afundar. Não são heróis. São opções inevitáveis. Ele não escolhem aquele terreno. Os voluntários sim... Fez questão de mostrar esse outro lado... O que me interessava era o ponto de encontro. As pessoas que se ocupam e se preocupam. Que dão o seu tempo para atenuar essa dor. Há um diálogo muito grande entre os voluntários e quem está na rua.


Já está a preparar um próximo filme?

Sim, chama-se a Ilha da Cova da Moura, que é uma ilha africana às portas de Lisboa. Gostava muito de lhe dar um sentido próprio. Queria trabalhar o tema com mais profundidade, em vez de ser uma simples reportagem, porque aconteceu uma coisa negativa naquele sítio. Estamos na fase de montagem. Deverá estar pronto em 2009.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Cinanima: a festa da animação



A Matter of Loaf and Death, o ultimo episódio da série britânica Wallace & Gromit, de Nick Park, é um dos grandes destaques do Cinanima, que decorre em Espinho, de 9 a 15 de Novembro. Aquele que é o maior festival de cinema de animação português, e um dos mais destacados a nível europeu, entra assim na 33.ª edição. O filme abre o certame, logo no dia 9, às 22 horas, numa sessão em que também passa Life Without Gabriella Ferri, da dupla estónia Priit e Olga Parn. O mais importante são os filmes portugueses. Para o Prémio António Gaio, da competição nacional, concorrem dez filmes, e muitos mais ficaram de fora, mostrando não só a quantidade mas também a qualidade da produção portuguesa. Alguns já se afiguram como favoritos ao prémio: Mi Vida en tus Manos, de Nuno Beato, sobre a tourada; Passeio de Domingo, de José Miguel Ribeiro, em que o único realizador português premiado com o Carton D’Or regressa à animação de volumes; Café, de João Fazenda e Alex Gozblau, dois dos melhores ilustradores portugueses da actualidade; 28, de José Xavier, num percurso a bordo do mais famoso eléctrico de Lisboa; ou Pássaros, de Filipe Abranches, já premiado no IndieLisboa. Diga-se que João Paulo Cotrim está em grande evidência, assinando o argumento de três dos dez filmes. À parte, funciona o Prémio Jovem Cineasta, dividido em diferentes categorias, que tanto premeia filmes de crianças como primeiras obras.

A Competição Internacional de Longas-metragens pela primeira vez conta com cinco obras. Mostra do encanto que vem de leste. Da república Checa, dois filmes: In Attic:Who has a birthday?, de Jiri Barta, uma fabulosa animação de marionetas, ao melhor estilo; e Goat Story – The Old Prague Legends, de Jan Tománek, a primeira longa-metragem 3D da República Checa, que conta a história do homem que fez o mais famoso relógio da Europa. Da Rússia, uma história de encantar em verso ainda ao estilo soviético: The Tale of the Soldier Fedot, The Darkling Fellow, de Ludmila Steblyanko. A dupla belga Stépháne Aubier e Vincent Patar apresenta em formato longo o trabalho apresentado em curtas-metragens, com aqueles bonequinhos plásticos de índios e cowboys. A aventura chama-se Panique au Village. A maior surpresa talvez venha da Argentina: Boogie, el Acetoso, de Gustavo Cova, é uma obra de uma violência exacerbada, inspirada numa BD proibida na Argentina durante a ditadura.

Pelo Cinanima passam ainda dezenas de curtas-metragens dos quatro cantos do mundo, bem como programas especiais, incluindo uma palestra de Lara Ermacora e um workshop de Marius Legge.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Este romenos são loucos

Police, Adjective, de Corneliu Porumboui
First of All, Felicia, de Melissa de Raaf e Razvan Radulescu





Os romenos aperceberam-se de que a sua realidade é, por si só, tão caricata, que de pouco vale puxar pela cabeça em busca de grandes ficções. Pelo contrário, mais vale conter os ímpetos realistas não vá o filme tornar-se demasiado inverosímil. É o que parece acontecer, em geral, na novo cinema romeno, de que estes realizadores são exemplos maiores. Corneliu Porumboiu, o realizador de A Este de Bucareste, conta agora um caso de polícia. Mas não se espere um thriller à americana, com tiros, perseguições e mortos. Por ali tudo é mais pacato. E o filme parte para o dilema moral de um agente, que se recusa a prender um jovem, apenas por este ter fumado droga. Há uma lentidão documental, numa sátira a um povo que se sabe rir de si próprio.
First of All, Felicia, é realizado por Melissa de Raaf e Razvan Radulescu, este último um dos grandes argumentistas da nova vaga romena, autor do texto de A Morte do Senhor Lazarescu. Só que aqui, em vez de fazer um giro pelos hospitais, expondo as fragilidades do sistema de saúde, passa grande parte do tempo no aeroporto, onde Felícia, uma emigrante, tenta por tudo regressar à sua casa, após uma visita aos pais. Mas o que interessa aos realizadores é focar as periclitantes relações de uma família disfuncional, no cruzamento de dois mundos. A realidade romeno é um irresistível apelo às artes.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Encontro imediático com Jorge Pelicano

Entrevista a Jorge Pelicano, vencedor da Competição Nacional do DocLisboa com Páre, Escute e Olhe


«Há muitas coisas nas entrelinhas dos comboios»

Ao longo de dois anos e meio, o realizador Jorge Pelicano, 32 anos, investigou, pesquisou, filmou (150 horas de filmagens para uma hora e meia de filme) o despovoamento no interior do país, a propósito do processo de «afogamento» da linha do Tua, em Trás-os-Montes, que culminou na decisão da construção da barragem do Sabor. Pare, Escute e Olhe (o filme que arrecadou três prémios no DocLisboa e outros três no Festival de Cinema de Ambiente de Seia), é um retrato, com humor e um estilo muito cinematográfico, de um país abandonado, desertificado, cada vez mais «aprofundado» por políticas desastradas de (des)ordenamento do território. A mostrar com que linhas (e entre-linhas) se cosem estes caminhos de ferro…

Pare, Escute e Olhe é um filme-denúncia que expõe como os nossos políticos não interiorizaram os princípios do desenvolvimento sustentável, e da boa gestão de recursos… Sentiu-se uma espécie de Michael Moore a enfrentar políticos poderosos, como Sócrates, e multinacionais, como a EDP?

Não me identifico com o Michael Moore que se centra sempre muito nele próprio. O que de facto não é muito comum no documentário português é a inclusão de políticos e discursos de políticos. Este é um documentário militante, que abraça uma causa , e tenta dar uma outra visão daquele tema, e voz aos que normalmente não a têm. Os governantes prometeram às pessoas que acabando com o caminho de ferro, viria uma auto-estrada, e o progresso. E o que aconteceu foi o contrário: emigração, despovoamento e abandono. Por outro lado, há uma contradição: defende-se a construção de uma barragem para gerar energia mas depois sugere-se às pessoas que a melhor forma de transporte não é o comboio mas a estrada, onde se usam energias fósseis…

Aliás, o filme começa com uma imagem de uma antiga estação comida pelas silvas, onde se albergam velhos, burros e cães…É a uma metáfora visual de como o poder político votou aquelas gentes transmontanas ao isolamento. Mas as estações mesmo em ruínas morrem de pé…

Porque é que enquadrou dos ombros para cima o primeiro ministro e o ex-ministro da economia, enquanto discursavam no Vale do Sabor?
Porque o que me interessava era o que estava por detrás das palavras. Nas entre-linhas. Quis mostrar um pouco mais do que aquilo que aparece na TV. Assim temos as duas versões: aquilo que os governantes dizem e o outro lado: o vale que eles querem cimentar…

Aliás, apanha uma conversa lateral de Sócrates em que ele diz «o que isto precisa aqui é de muito cimento»…Pois… Temos de pensar se queremos um país todo igual, com albufeiras e barragens por todo lado. Ou se é preferível ficarmos com algo único, que faz parte da nossa identidade histórica. Eu penso que a diferença é que é importante

E intercala discursos com imagens de um coveiro…Porque a morte do comboio é uma morte política. E a cova que se vai abrindo é a morte que se vai anunciando no interior e em Trás-os-Montes. A nossa sociedade está a abrir a sua própria sepultura. Acho revoltante o pretexto do despovoamento para criar ainda mais despovoamento.

Mesmo assim, o seu documentário acaba com uma dupla mensagem: ou as pessoas emigram ou as próximas gerações «soltam» os seus rios…Os documentários devem apontar problemas mas ainda assim deixar alguma esperança. Eu ia à procura de revolta e apenas encontrei resignação. No início fiquei desapontado, mas depois percebi que essa é que era a história: não haver luta, nem forças para reagir. Não usei voz off, nem entrevistas, apenas me limitei a filmar as pessoas no seu quotidiano. Aprendi a saber esperar pelo momento, sem ter ideias pré-definidas. Como também faço televisão (é repórter de imagem na SIC) tive de me distanciar, para dar outro lado, outro plano, outra perspectiva, outra voz… E dar às pessoas o que não estão habituadas a ver. No fundo, quis partir de um caso particular, que é o do comboio do Tua e a barragem do Sabor para mostrar o problema do isolamento, que é universal.

A certa altura uma senhora diz «isso da barragem já não é para o meu tempo, já sou muito velhinha…» Dá ideia de que os políticos também raciocinam assim…
Sim, muitas pessoas pensam que até podem lucrar com as indemnizações dos seus terrenos inundados pela barragem. Mas isso não gera trabalho, ainda vai criar mais migração para o litoral e para o estrangeiro… O olhar do filme é para daqui a 20 ou 30 anos…Essa é no fundo a grande visão do filme. Reflectir, olhar para o futuro de outra maneira e questionar aquilo que se faz em nome do progresso…



Uma das pessoas no seu documentário fala de «vandalismo político» e da barbáries que são cometidas pelas multinacionais. Afinal, o que é o progresso?
Tem de haver limites, nem tudo pode ser justificado em nome do progresso. O caminho faz-se sempre em nome de um benefício global (a barragem) em detrimento da pequena comunidade As pessoas não são números. Quando se diz que a linha do Tua é utilizada por 60 pessoas, isso não é um número: são 60 pessoas, que precisam do comboio para irem ao médico, fazer fisioterapia, comprar coisas ou simplesmente passear… Há muitas coisas nas entrelinhas do comboio.O filme não pretende ser uma crítica politica, mas algo que apele à reflexão. E o título remete para aí: pare, escute e olhe

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Parada de estrelas no Estoril

FRANCIS FORD COPPOLA

É seguramente um dos realizadores americanos que mais marcou o século XX. Francis Ford Coppola visita pela primeira vez Portugal, para apresentar o seu último filme, Tetro, que tem estreia marcada para 19 de Novembro. Domingo, dia 8, às 20 e 30, o filme passa no EFF, seguindo-se um encontro do público com o realizador. Rodado em Buenos Aires, Tetro conta a história de reencontro, numa família de emigrantes italiana. É o filme que sucede a Uma Segunda Juventude. E as expectativas são imensas. Coppola é o autor de obras emblemáticas, como Apocalipse Now, Do Fundo do Coração, Os Marginais, Juventude Inquieta ou a saga O Padrinho.

DAVID CRONENBERG

Paulo Branco é o produtor do novo filme de David Cronenberg, Cosmopolis, a partir do livro de Don Delillo, que deverá ser rodado entre Toronto e Nova Iorque durante o próximo ano. Não se torna assim tão estranho que o realizador seja um dos convidados de honra do EFF, até porque é a sequência mais lógica à visita de David Lynch. O Festival vai fazer a maior retrospectiva do cineasta canadiano de todos os tempos. Além dos filmes, vão estar patentes duas exposições. Em Chromossomes, painéis feitos através de fotogramas originais de filmes do realizador, com uma tecnologia digital capaz de produzir efeitos cénicos. Em Red Cars, um storyboard inédito e apurado ao longo dos anos pelo próprio. Terça-feira, dia 10, às 21 horas, está marcado um encontro com o público, em que mostrará um episódio inédito da série The Italian Machine (1976). E, de seguida, às 22 horas, apresenta Crash, porventura o mais carismático dos seus filmes.

JULIETTE BINOCHE

O EFF assinala os 25 anos de carreira de Juliette Binoche, com uma enorme homenagem, sintetizada na exposição Portaiis In-Eyes. Tratam-se de 68 pinturas e retratos de personagens interpretadas pela actriz ao longo da vida, que também serão lançados em livros. A própria inaugura a exposição, dia 5, às 19 e 30. À noite, marcará presença na Gala de Abertura. No dia seguinte, 6, está marcada uma sessão de autógrafos para as 18 horas. Às 19 e 30, apresenta o documentário Juliette Binoche Dans Les Yeaux, realizado pela sua irmã, Marion Stalens, que também estará presente. E às 22 apresenta o filme Désengagement, de Amos Gitai. O festival exibe uma pequena parte da extensa filmografia da actriz francesa, com destaque para obras como Les Amants du Pont-Neuf, de Leos Carax (dia 6, às 0.45); Mary, de Abel Ferrara (dia 12, à meia-noite); Caché, de Michael Haneke (dia 7, às 17 e 45); e A Viagem no Balão Vermelho, de Hou Hsiao-Hsien (dia 13, às 15 e 15).

PETER HANDKE

O seu nome é vulgarmente associado ao de Wim Wenders. Peter Handke é o autor de A Angústia do Guarda-Redes antes do Penalty, livro que deu origem a um dos primeiros filmes do alemão. A parceria veio a cimentar-se de forma clara. Em muitos filmes trabalhou como argumentista, incluindo As Asas do Desejo, que para muitos é considerado a obra-prima de Wenders. Handke também é considerado uma dos grandes escritores alemães e arriscou realizar alguns filmes, como The Left-Handed Woman, com Bruno Ganz e Gerard Depardieu, e L’Abscence, com Jeanne Morreau. O primeiro será exibido no festival, com a presença do realizador, no dia 11, às 19 e 30

DAVID BYRNE

É um grande luxo ter David Byrne como júri de um festival. Não se trata propriamente da primeira visita do músico escocês a Portugal. Já deu inúmeros concertos e é conhecida a sua ligação com o Brasil. O ex-líder dos Talking Heads fundou a Luaka Bop, uma importante editora de músicas do mundo Nova Iorquina, e com o seu selo saíram álbuns de Paulo Bragança e Waldemar Bastos. Já visitou de forma informal várias vezes o nosso país, mas desta feita passa cá uma semana. No dia 13, às 18 horas, apresenta True Stories, um filme sobre os Talking Heads, realizado por si próprio. A ligação de Byrne ao cinema não fica por aqui. É autor de variadas bandas sonoras, para filmes, peças de teatro e séries de televisão. E entrou como actor em filmes como Lulu on the Bridge, de Paul Auster.

ROBERT FRANK

Apesar de ter nascido na Suíça, Robert Frank é uma autêntica lenda viva do cinema e da fotografia americanos. É o autor de um dos mais marcantes livros de fotografias, chamado Os Americanos, onde, precisamente, faz um retrato profundo dos Estados Unidos. A sua obra cinematográfica é igualmente fascinante. Em 1959, realizou Pull My Daisy, com narração de Jack Kerouac e interpretação de Alen Ginsberg, entre outros elementos da beat generation. Em 1972, realizou Cocksucker Blues, um polémico documentário sobre os Rolling Stones. Robert Frank estará presente no EFF para apresentar Candy Mountain (dia 7, às 17 horas), um filme realizado com Rudy Wurlitzer, sobre Elmore Silk, um lendário construtor de guitarras americano. Segue-se um encontro com o público.

CINDY SHERMAN

É uma das mais fascinantes artistas plásticas dos anos 80. É particularmente conhecida como fotógrafa, usando-se a si própria com objecto retratado. Mesmo nesse trabalho tem uma forte ligação ao cinema, numa série em que criava fotografias simulando frames de um filme imaginário. A própria realizou um filme, em 1997, chamado Office Killer, e participou em Peckers, de John Waters. A obra de Sherman já esteve em exposição no CCB. No EFF não será exibido o seu filme. Cindy Sherman é actualmente é companheira de David Byrne.

VICTOR ERICE

Juntamente com Franco Piavoli completa o quadro da homenagem a cineastas raros do EFF. Victor Erice é de facto raro pela qualidade da sua pequena obra. Vulgarmente é considerado por génio, e há quem diga que é o melhor cineasta espanhol desde Buñuel. Isto apesar da sua obra ser extremamente curta. Apenas três longas-metragens: O espírito da Colmeia, de 1973, num retrato perspicaz da Espanha rural; O Sul, de 1983, a partir de um romance de Adelaide Garcia Morales; e O Sol do Marmeleiro, de 1992, um documentário sobre o pintor Antonio López García. No EFF apresenta a sua mais recente curta-metragem, La Morte Rouge.

ALEXANDRE DESPLAT

É um dos mais requisitados compositores do cinema dos nossos tempos. Já construiu a banda sonora de dezenas de filmes, bem conhecidos do público em geral. Estreou-se em 1985, em Ki Lo Sa?, uma comédia de Robert Guédiguian. Desde aí que o músico francês não tem parado, em obras como A Rapariga do Brinco de Pérola, de Peter Webber; De Tanto Bater o meu Coração parou, de Jacque Audiard; O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fyncher; ou A Rainha e Cherry, de Stephen Frears. No festival vão passar dois filmes, em ante-estreia, com banda sonora sua: O Fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson (na sessão de abertura, dia 5, às 22 e 30); e Um Profeta, de Jacques Audiard (dia 14 às 21 e 30).

JACQUES AUDIARD

Aos 55 anos, Jacques Audiard é considerado um dos grandes realizadores franceses da actualidade. Começou como argumentista, ainda nos anos 70. Só em 1994 se estreou na realização com Regarde les Hommes Tomber. Em 2005, destacou-se internacionalmente com De Tanto Bater o Meu coração Parou. No EFF, o próprio apresenta a sua última obra, que recebeu o Prémio Especial do Júri no último Festival de Cannes, Um Profeta. É o filme de encerramento do festival, dia 14, às 21 e 30.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O Festival de todas as estrelas



Don Delillo estará em Portugal, novamente para acompanhar o Estoril Film Festival, que decorre de 5 a 14. Mas tal mal será notícia. Perante a constelação que passa pelo Estoril, naturalmente, que desta vez o escritor americano, um repetente, não ocupará extensas páginas nos jornais. O Festival de Paulo Branco coloca Portugal no circuito internacional das grandes estrelas. Este ano é certa a presença de Coppola, Juliette Binoche, David Cronenberg, entre muitos outros. Além de uma dúzia de ante-estreias e uma sessão competitiva que promete…

O Fantástico Senhor Raposo, de Wes Anderson, um dos filmes mais esperados do ano, vai ter a sua segunda exibição mundial no EFF. Isto logo no dia da abertura, às 22 e 30, depois da gala. Após The Darjeeling Limited, o realizador surpreende tudo e todos com uma animação, baseada num livro de Roald Dahl, o autor de Charlie e A Fábrica de Chocolate. Maior ainda é a expectativa para o último filme de Michael Haneke, O Laço Branco (dia 7, às 22), que venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes, e conta a história de duas crianças que fazem parte do coro de uma Igreja Protestante. São dois óptimos exemplos da qualidade elevada do Festival de Paulo Branco, sobre o qual, cada vez mais, caem os olhos do mundo.

Também premiado em Cannes foi Um Profeta, de Jacques Audiard, sobre um jovem árabe que é enviado para uma prisão francesa. Encerra o festival (dia 14, às 21 e 30). Ainda agora estreou nas salas portuguesas O Delator, e o EFF já mostra o filme seguinte de Steve Soderbergh, The Girlfriend Experience (dia 12, às 22 horas), para o qual descobriu a actriz Sacha Grey, que estará presente no Estoril. Uma bomba promete ser o novo filme de Lars Von Trier, realizador habituado a polémicas e a pequenas revoluções no cinema, que desta vez inventa-se num novo género: o terror. Como é hábito a crítica tem-se dividido em relação a Anticristo (dia 13, à meia-noite), mas entre o gore e a comédia tem todas as condições para se tornar filme de culto. A neo-zelandesa Jane Campion, que tem uma retrospectiva no festival, também ante-estreia Bright Star (dia 11, às 22 e 15), um filme passado no século XIX, que conta a história de amor entre o poeta John Keats e Fanny Brawne. Entre os portugueses, aguarda-se a estreia de Os Sorrisos do Destino (dia 7, às 19 e 30), de Fernando Lopes, numa sessão com a presença do realizador e dos actores (ver crítica p. 30). E há ainda uma grande obra Lola Montés (dia 9, às 12 e 30), a única película de Max Ophuls a cores, que é apresentada em cópia restaurada.

Os convidados são de tal gabarito e as ante-estreias tão significativas, que inevitavelmente se deixa para segundo plano a sessão competitiva. Contudo não é de todo desprezível. Aliás, Moon (dia 8, às 18), do inglês Duncon Jones, um dos filmes exibidos, também será estreado muito brevemente em sala.

Tal como aconteceu o ano passado, com 4 Copas, de Manuel Mozos, também este ano há um filme português em competição: Duas Mulheres, de João Mário Grilo. Passará em estreia mundial. A cinematografia romena continua a estar em grande destaque. No EFF está duplamente representada. Por Police Adjective, de Corneliu Porumboiu, o mesmo realizador de A Este de Bucareste (dia 6, às 17 horas). É novamente um retrato perspicaz e quase documental da Roménia, desta vez contando a história de um polícia com um dilema moral. E First of All, Felícia (dia 11, às 15 horas; dia 12, às 19 e 30), realizado por Melissa de Raaf e Razvan Radulescu, este último é o autor de A Morte do Senhor Lazarescu. Também do Leste, Eastern Plays (dia 10, às 17 horas; dias 11, às 19 e 45), do búlgaro Kamen Kalev, que conta a história de dois irmãos, outrora rivais e agora unidos.

A França é o pais mais representado, com três filmes: La Famille Wolberg (dia 6, às 15; doa 7 às 22 e 15), de Axelle Ropert, numa família disfuncional e poderosa perdida na província francesa; Le Roi de l’Evaasion (dia 11, às 17 e 15; dia 12, às 21 e 45), de Alain Guiraudie, sobre um homossexual que se apaixona; Les Beaux Grosses (dia 8, às 16 horas) é o primeiro filme de Riad Sattouf, sobre os amores e desamores de um adolescente. A Espanha está representada com Petit Indi (dia 7, às 15 horas), do catalão Marc Recha, que fala de um treinador de periquitos. Da Grécia, Dogtooth (dia 10, às 18 e 45), de Giorgios Lanthimos, com a presença do actor Christos Stergiougiou. E da Suécia, The Girl (dia 19, às 17 e 30), de Fredrik Edfeldt, que também estará presente no festival.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Encontro imediático com Rui Simões

As Ruas da Amargura, que estreou há dois anos, no DocLisboa, chega agora às salas.



A biografia no site de Rui Simões acaba abruptamente em 1974, depois de se ter exilado em França e na Bélgica, com a frase «Regressa a Portugal». Ponto. «O que é que quer? Este é um país de encalhados.» A partir daí, diz o cineasta Rui Simões, 64 anos, «não há mais história.
A minha vida tem sido assim, com altos e baixos, às vezes filmo, outras não».
E 30 anos depois dos seus referenciais documentários Bom Povo Português e Deus, Pátria, Autoridade, sobre os tempos do PREC, o realizador regressa com Ruas da Amargura, em competição no DocLisboa.
Depois de ter andado tantos anos a filmar teatro e dança, volta aos palcos reais do País. Porquê este regresso, ou porquê este intervalo? Foram circunstâncias da vida, que não dependem de mim. O que eu queria era fazer ficção mas nunca consegui financiamento, continuo a concorrer aos subsídios do ICA, nos concurso das Primeiras Obras... Para poder ter contacto com actores e bailarinos liguei-me cinematograficamente a esses ambientes, à Olga Roriz e ao Bando. Não houve financiamentos nem encomendas, e, durante dez anos, acompanhei a Olga por puro diletantismo. Apeteceu-me fazer e fiz. Ainda bem, porque eram momentos que se perderiam para sempre.

Qual o lado destas «ruas da amargura» que mais o interessou, o lado dos sem-abrigo ou o dos voluntários?
O projecto já tem dez anos. Apresentei-o sistematicamente a concurso entre 2002 e 2007. Interessava-me, em especial, o ponto de encontro entre estes dois grupos.
E o que daí podia resultar. Claro que os sem-abrigo, por causa das suas personalidades e contradições, vão crescendo dentro do filme...

Quase se arriscaria dizer que um dos personagens, o Fernando Moedas, toma conta do filme...
Sim, ele ganha um protagonismo especial.
É um alcoólico em estado grave e os alcoólicos são muito fortes enquanto personagens, não sei explicar porquê...

Há um momento particularmente surpreendente, em que ele começa a cantar Charles Aznavour...
Ele entregou-se muito ao filme, e a nossa relação foi crescendo. Este é um tema muito espectacular, eles vivem em situações-limite, de certa maneira fui obrigado a não mostrar tudo...

Mas acaba por mostrá-lo, num momento de intimidade, nu, a tomar banho...
Mas isso não é um momento degradante.
É bonito mostrar ao público que estas pessoas, apesar de tudo, não se abandonam totalmente.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

FINAL CUT ofereces passes para o ESTORIL FILM FESTIVAL

Mais uma vez, o Estoril Film Festival apresenta um elenco de encher o olho e deixá-lo completamente esbugalhado.

Entre 5 e 14 de Novembro, o Casino do Estoril concentra o maior número de estrelas cinematográficas por centímetro quadrado.

David Byrne, Cindy Sherman, David Cronenberg, Juliette Binoche ou Francis Ford Coppola desfilarão naquilo que Portugal tem de mais parecido com uma passadeira vermelha.

O FINAL CUT tem o imenso prazer de oferecer passes de acesso aos filmes apresentados no Festival aos nossos primeiros visitantes que responderem acertadamente à seguinte questão:

Quais destas personalidades nunca estiveram presentes no Estoril Film Festival?

a) Agnés Varda

b)Pedro Almodóvar

c)Bernardo Bertolucci

d)Steven Spielberg

d)Catherine Deneuve

e)Paul Auster

f)Mary Poppins

Envie a resposta correcta e a sua identificação para para finalcutvisao@gmail.com

Boas Visões!

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

E, no entanto, elas movem-se



História de uma produtora de animação portuguesa que aposta numa indústria à escala internacional. Para já, conseguiu ser seleccionada para o Fórum Cartoon, na Noruega, com a história de um rapaz de cartão

Uma espécie de desnivelamento verbal. Que nos traz o sobressalto do pasmo e da ironia. Sardinha em lata é talvez a mais poderosa imagem da quietude, da inércia, do aperto. Aí está, esse mísero e acanhado peixe, tão acomodado quanto português, enlatado, posto em sossego em azeites e óleos alimentares. E, no entanto, elas movem-se. Como Sardinha em Lata - curioso e imobilizado nome para uma produtora que faz do movimento o seu ofício.
Criada há pouco mais de dois anos, embora constituída por realizadores que trabalham há muito na área, na Sardinha em Lata, produtora de cinema de animação, aposta-se, pela primeira vez em Portugal, na internacionalização. Sardinhas que enfrentam tubarões. E até agora, com mergulhos de mar alto: Dodu, o Rapaz de Cartão, projecto de série, de 78 episódios com 5 minutos, foi seleccionado e apresentado, na sua versão piloto, este mês no Cartoon Fórum, na Noruega. Considerada uma das mais ambicionadas arenas da indústria europeia da animação, o evento é organizado pela Cartoon, uma associação sem fins lucrativos sediada em Bruxelas, que desde há 20 anos une esforços, produtores, investidores e difusores europeus para dar a conhecer as realizações dos vários países, quase sempre esmagados pelos grandes cachalotes da animação americana. Este ano foram exibidas 310 horas de animação. França apresentou 15 projectos, Espanha treze, Portugal este exemplar único, da autoria de José Miguel Ribeiro, que em 2000 venceu o Cartoon D’Or, o mais importante prémio de animação europeu com a curta A Suspeita, e esteve à beira da nomeação para os Óscares. Dedica-se, agora, a esta animação infantil, de volumes em cartão, que estará pronta daqui a 21 meses e poderá ser exibida em canais televisivos de todo o mundo.A empreitada é de grande envergadura: 390 minutos de animação, com um orçamento previsto de 6.500 euros por minuto (2 milhões e meio de euros, no total).

Levar a vida a dar vida
«Chegamos a levar um ano para fazer 15 minutos de animação», explica o realizador. E à medida que visitamos as instalações da produtora, o nome Sardinha em Lata parece ganhar mais sentido. Dezenas de animadores imobilizam-se às suas secretária para produzirem mobilizações das pequenas personagens que vão aparecendo no afiado dos seus lápis. «No fundo, do que se trata aqui é de trabalho, trabalho, trabalho...».
À sua frente, a forrar uma das paredes do estúdio, está outro dos seus projectos, ainda na fase inicial de pura paralisia. Como se fosse uma espécie de BD condensada, um story-board cinematográfico com toda a sequência fundamental desta nova obra de José Miguel Ribeiro. Chama-se Viagem a Cabo Verde e terá 15 minutos de duração. O story –board no cinema de imagem real é opcional, «em animação é obrigatório. É um instrumento de trabalho, o nosso mapa.». O filme conta as aventuras de uma personagem solitária, a calcorrear a imponderabilidade das ilhas crioulas, e que aos poucos se vai libertando das urgências e das pré-formatações citadinas. A curta assume a sua componente autobiográfica, a julgar pelos contornos da figura e também pela viagem de auto-reconhecimento que o realizador fez há tempos. A história inspira-se nessa experiência de vida e muitos dos desenhos baseiam-se naqueles que trouxe consigo no seu diário de viagem. Regra número um: «Sacudir sempre as botas antes de as calçar». A segunda coisa que a personagem aprende é a pôr de lado as impaciências e outras angústias: «Se não funciona faz restart». Lembra-se de estar a viajar numa daquelas trepidantes camionetas de Cabo-Verde, que ia apinhada de pessoas, mais ou menos como o nome da sua produtora. A certa altura vê-se uma senhora gorda à espera. O condutor pára, diz «tudo cá para fora», e volta a meter toda a gente lá dentro, senhora gorda incluída: «em Cabo Verde, há sempre lugar para mais um». A viagem surgiu desta necessidade que, às vezes, as pessoas sentem de parar. Esta personagem vai «parar», durante uns tempos, para Cabo Verde, mas aí é impossível não conhecer pessoas. Terceira regra deste errante viajante: «Não planear o dia seguinte».
Precisamente o contrário do quotidiano de um realizador de animação. De regresso aos antípodas e à vida real: os projectos têm de ser planeados ao milímetro (literalmente), com anos e anos de antecedência. E com uma rede financeira bem montada por baixo, a sustentar todas estas acrobacias animadas.

Trabalho, trabalho, trabalho...
Enquanto que em imagem real, é possível resolver a questão da rodagem numa semana, em animação falamos de uma progressão de seis segundos por dia. Num só plano, regra geral, há seis conjuntos de desenhos. Em suma, ao todo, numa curta de 15 minutos poder-se-ia alinhar os desenho numa pilha de papel que quase atingiriam a altura de um dos seus criadores: mais ou menos 1,60m... Daí a importância de estabelecer acordos, protocolos, co-produções com estúdios estrangeiros e financiamentos prévios. Participar em eventos como este do Fórum Cartoon torna-se uma lança na Europa. E são vitais os apoios que possam vir do ICA, da RTP, e da Câmara de Montemor, onde estão alojados os estúdios de animação com volumes, e se encontra em fase de finalização Desassossego. Esta curta de 20 minutos, da autoria do realizador italiano residente em Portugal, Lorenzo Degl’Innocenti, conta a história com fina trágico de um merceeiro saturado, que quer mudar de vida e de rumo. Só a parte de construção dos bonecos e dos cenários durou quatro meses. Depois entraram em cena o director de fotografia e a equipa de iluminação. A seguir, os animadores, com uma paciência infinita, movem milimetricamente as personagens e vão-se tirando fotografias, à razão de seis vezes 24 fotogramas por segundo.
«Por isso é que eu digo que fazer animação é o mesmo que investir na cortiça», continua José Miguel Ribeiro. «Se eu agora decidir comprar uns sobreiros novos, só os meus netos é que vão beneficiar disso. A animação é assim.... Apenas entra neste mundo quem tem paciência e tempo para estudar».
E o que se estuda é basicamente o movimento, desde os mais simples até aos mais complexos que são os dos animais e dos humanos. Ao contrário do que muita gente pode pensar, a animação tem muito mais a ver com movimento do que com desenho ou pintura: «A arte que mais se aproxima da animação é a música ou a dança».
Mais do que o domínio de uma tecnologia, é importante aprender «a linguagem do movimento, como quem aprende música». Porque acrescenta, José Miguel Ribeiro, «movimento é uma espécie de poesia».
Ao contrário do que acontece em Espanha ou noutros países europeus, não existe em Portugal, qualquer curso de animação. A maior parte dos cento e pouco animadores que (sobre)vivem em Portugal são auto-didactas. Apenas vão acontecendo alguns workshops esporádicos e desgarrados. José Miguel Ribeiro faz parte daquela geração que ficou «apanhada» pelos míticos programas de animação de Vasco Granja: «A animação que ele nos mostrava abriu-nos a cabeça e a capacidade de olhar com outros olhos para este cinema, superando o fácil e o imediato, dando-nos uma mais extensa cultura visual». Licenciou-se em Belas-Artes, dedicou-se à pintura e à ilustração, mas foi no programa Rua Sésamo, onde trabalhou, que se reencontrou com personagens em acção, e com o seu fascínio de infância. Trabalhou com ZEP e Abi Feijó (nomes referenciais da animação em Portugal), colaborou no Vitinho, o boneco que, nos anos 80, levava as crianças portuguesas para a cama – só que, para ele, tinha o efeito inverso: tirava-lhe o sono. Entretanto surgiu esta medalha de ouro das olimpíadas da animação na Europa, com A Suspeita (26 prémios garantiram-lhe o pódio do filme de animação português mais premiado de sempre). Em 2004, realizou a série infantil As Coisas Lá de Casa e, ainda este ano, apresentou no Indie e em Vila do Conde, Passeio de Domingo, uma outra animação de volumes, em que se reflecte sobre estes momentos de convívio familiar.

Perpétuo movimento
Além da estratégia internacional, outra característica da Sardinha em Lata é a variedade. «O que nos move é a novidade. O grande estímulo é aprender. Procuramos sempre não nos repetir e experimentar várias técnicas», comenta Nuno Beato, outro dos realizadores da produtora. Num canto do estúdio, guardam-se inúmeros fragmentos de tecido que servem para construir a série Ema & Gui (52 episódios de 7 minutos). A ilustradora Rosa Baptista uniu-se a este realizador, nesta co-produção luso-espanhola, de forma a passar as personagens e cenários para tecido, ganhando assim outro potencial de textura. Depois de digitalizados, pintados e recortados, as personagens e cenários são postos a mexer num software de animação de recortes. Mas, dizem, «o trabalho manual da pré-produção e a preocupação de qualidade retiram à animação digital a sua habitual frieza». A série, com orçamento de 700 mil euros, é indicada para crianças em idade pré-escolar e conta a história de uma menina, que tem um amigo imaginário, e viaja «para lá das nuvens», quando calça uma botas mágicas.
Uma outra técnica radicalmente diferente testou Nuno Beato na sua curta-metragem em Mi Vida em Tus Manos (7 minutos) que já se estreou no Monstra e passará também no Cinenima, Festival de Animação de Espinho, em Novembro. Para contar uma história passada nos bastidores de uma tourada, Nuno Beato usou a arte de pintura no vidro, «porque permite fazer mutações». E é justamente disto que se trata na belíssima curta de Nuno, animada primeiro em digital 3D. Depois, esteve cerca de dois meses a pintar de pé (porque assim o obrigava a logística tecnológica), imagem após imagem. Meses antes de avançar para o guião, Nuno Beato documentou-se, assistiu a touradas, viu vários vídeos sobre o assunto, pesquisou, tinha uma ideia «anti» muito radical, aprendeu a ser mais moderado. E a história evoluiu para uma relação entre um pai e um filho. Por isso, refere, é tão importante ter um guião e uma ideia de base forte e estimulante. Justamente para não desanimar: «Temos de carregar com a história durante anos. Mesmo com bons desenhos, se a ideia não for forte, não dá».
A técnica de Pedro Serrazina (autor de A Estória do Gato e da Lua, 1995) em Olhos de Farol, outra das curtas da Sardinha em Lata em fase de produção, ainda é mais complexa: envolve imagem real e pintura. Conta a história de uma menina que vive isolada com o pai, numa ilha de um farol, e os seus dias iluminam-se com os objectos naufragados que o mar lhes traz. Ao contrário do pai, que tem uma relação muito negativa com esses objectos, porque o ligam ao mundo e a uma memória que o atormenta.
Quem disse que sardinhas em lata não se moviam?

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

De olhos bem abertos

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Índios & cowboys


Birdwatchers - a terra dos homens vermelhos, de Marco Bechis






É uma história de índios e cowboys. Só que aqui os cowboys são os maus da fita. Aliás sempre foram, não nas histórias, mas na História. Porque todas estas são lutas territoriais. Lá no Oeste, tal como no Brasil, os índios já lá estavam quando os homens brancos, montados a cavalo, de chapéu engraçado, esgotaram-lhes os recursos e declararam-lhes guerra. No Brasil, tal como noutros territórios achados por ocidentais, houve um autêntico genocídio, em parte porque os índios, por teimosia ou orgulho, ao contrário dos africanos, não se deixaram escravizar. Os autores do massacre começaram por ser os portugueses e os espanhóis, mas as pátrias libertadas pelos colonos prolongaram o crime contra a humanidade: o grito de Ipiranga não foi dado por nenhum guarani. A terra é índia, por legitimidade histórica.

Os problemas persistem na Amazónia descoberta por observadores de aves e de peles vermelhas. E é esse conflito actual, com ar anacrónico, que o chileno Marco Bechis retrata neste filme maior, na senda de Werner Herzog, em que faz questão de pintar a história com ares de western. Um western realista, próximo da linha do equador. Lá nos confins da Amazónia, os índios resistem como podem à aculturação dos cowboys. Mas todas as saídas se fecham. E muitos índios se branqueiam.

Birdwatchers não entra na demagogia fácil, exibe a podridão de ambos os lados, levantando as mais pertinentes questões antropológicas. Mas acaba por tomar parte, de forma clara, num apelo final à doação de fundos. Não deixa de ser uma obra original que explora de forma realista universos que nos habituámos a tomar por ficção. Mas um índio calçado não deixa de ser um índio. Ou será que sim?


terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O homem enquanto Deus de si próprio


Os Substitutos, de Jonathan Mostow






Todos vivemos, todos morremos, nada é para sempre. O Substitutos é uma poderosa obra de ficção científica graças, em primeiro lugar, ao novo conceito que apresenta, que inverte as teses derrotistas que julgam que depois de Matrix pouco resta a imaginar, dentro dos filmes de género. O conceito em causa n’Os Substitutos nem sequer foi criado especialmente para o filme, mas antes rebuscado de uma primorosa novela gráfica de Robert Vinditti e Brett Weldelle. Os homens servem-se de substitutos, de autómatos, para se protegerem a si próprios, mas também para melhorarem a sua performance quotidiana (para sempre novos, para sempre belos, para sempre ágeis). Tornam-se assim em Deuses de si próprios, que controlam o seu próprio destino, julgando-se imortais na máquina em que se projectam, no outro criado à sua imagem e semelhança. Deuses ateus, felizes virtualmente, fora de si, embaraçados com o seu ego, irremediavelmente humano. São entes que, em situação extrema, eventualmente se excluiriam em nome do outro, que afinal não são.

Nesta sociedade futurista, há espaço para uma contracorrente, uma população mais pobre mas não menos esclarecida, que se opõe a tal artificialidade. Um movimento de homens comandado por um profeta de palavras Sábias: “Podem esconder-se por detrás das vossas marionetas, mas não podem fugir da vossa condição humana”. Os perigos do homem quando de toma por Deus. Um engano.

À parte da elaborada concepção filosófica, que dá pano para mangas, é apreciável a forma como o conceito está bem desenvolvido no filme, dando-lhe uma roupagem de filme de acção, bem ao estilo de Bruce Willis, que é protagonista. A moral anti-tecnológica tem os seus perigos, e tanto pode ter uma leitura reaccionária quanto subversiva. Tanto mais que se sabe que o homem é incapaz de impedir o progresso, mesmo quando este serve para o auto-destruir.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Morrer, dormir... dormir, sonhar talvez

Morrer como um homem, João Pedro Rodrigues





O novo filme de João Pedro Rodrigues, Morrer Como um Homem (nas salas) é um poço de contradições. Mas um poço em que os diferentes elementos não se estatelam em cacos lá em baixo. Eles unem-se numa fusão a pique, lenta como a queda da Alice na toca do coelho. Ao contar as desventuras de Tónia, um travesti lisboeta que envelhece, e dos seus infortúnios amorosos, o realizador parece aproximar-se do imaginário gay almodovariano, para logo o abandonar, seguindo noutras direcções, mais próximas do melodrama, com forte aroma a fado e a um destino traçado, muito português. Tão depressa mergulhamos num universo assumidamente kitsch, com crochés, bibelots, benzeduras e um aquário, como caímos por outro buraco de coelho num ambiente hiper-sofisticado, irrealista, onde umas personagens híbridas e teatrais perseguem gambozinos. O filme baseia-se na história do transformista Ruth Bryden, que, de facto, foi enterrado vestido de homem. Funesto, fadista e surpreendente.

sábado, 24 de Outubro de 2009

PRÉMIOS DOCLISBOA 2009

PALMARÉS

Grande Prémio Cidade de Lisboa para melhor longa-metragem

Petition, de Zhao Liang

25 Out, 21:00 Culturgest - Grande Auditório

Prémio CGD para melhor primeira obra (longa-metragem)

October Country, de Michael Palmieri e Donal Mosher

25 Out, 23:00, Culturgest - Grande Auditório


Prémio para melhor média-metragem

Mirages, de Olivier Dury

25 Out, 22:30 Culturgest - Pequeno Auditório


Prémio para melhor curta-metragem

10 Min, de Jorge Léon

25 Out. | 22:30 Culturgest - Pequeno Auditório


Prémio SIC Notícias para melhor documentário de investigação

The Revolution that Wasn´t, de Aliona Polunina

25 Out. | 18:30 Culturgest - Grande Auditório


Competição Portuguesa

Prémio Tobis para melhor longa-metragem

Páre, Escute e Olhe, de Jorge Pelicano

25 Out. | 16:30 Culturgest - Grande Auditório


Prémio Tobis para melhor curta-metragem portuguesa

Passando à de Zé Marovas, de Aurora Ribeiro

Menção Especial

Entrevista com Almiro Vilar da Costa, deSérgio Costa


Prémio para melhor primeira obra

Com que Voz, de Nicholas Oulman


Prémio AVID

para melhor montagem

Páre, Escute e Olhe, de Jorge Pelicano

25 Out. | 16:30 Culturgest - Grande Auditório


Prémio Escolas Prémio IPJ Escolas para o melhor filme da Competição Portuguesa

Páre, Escute e Olhe, de Jorge Pelicano

25 Out. | 16:30 Culturgest - Grande Auditório


Prémio Escolas Prémio IPJ Universidades para a melhor longa-metragem da Competição Internacional

Hasta La Victoria, de Chris Guidotti e Matteo Besomi

Um best of de Jonas Mekas


21 from 40, de Jonas Mekas





A história da cultura underground americana passa por Jonas Mekas. Ou então foi Jonas Mekas que passou por ela, com uma câmara nas mãos, para nosso imenso deleite. Esta série de 21 curtíssimas metragens, tiradas de uma série de 40, funcionam bem como resumo de toda a sua arte e pertinência. Tratam-se apenas de quadros ou flashs onde se podem ver, entre outros, Andy Warhol, Lou Reed, Nico, John Lennon e Yoko Ono, Elvis Presley, Patti Smith, Allen Ginsberg, Salvador Dali. À parte da riqueza de protagonistas, os filme de Mekas valem pelo experimentalismo da sua câmara. Por aqui percebemos que as artes de Vincent Moon ou Edgar Pêra não vêm do nada. Num dos flashes o realizador reclama: “O cinema não tem cem anos!”. O cinema de Mekas parece para sempre novo.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Rearrumar a estante dos DVD

Antes de mergulhar a fundo na nova estação Outono-Inverno cinematográfica, a última chamada para arrumar a prateleira com filmes que marcaram a temporada anterior, já em DVD

- Adeus, Até Amanhã
António Escudeiro
Real Ficção

Um roteiro sentimental on the road, através de quatro mil quilómetros angolanos. No documentário, presente no DocLisboa, o autor regressa ao seu país de origem, ao encontro das pessoas e do(s) espaço(s), sem saudosismos estéreis.

- Aquele Querido Mês de AgostoMiguel Gomes
Som e a Fúria
O filme português mais híbrido e premiado dos últimos tempos. A segunda longa do realizador fez um percurso exemplar pelos festivais internacionais e conquistou dezenas de prémios e muitos elogios da crítica.

- Entre os Dedos
Tiago Guedes e Frederico Serra
Clap Filme
Uma das melhores produções nacionais recentes, o segundo filme da dupla demonstra uma coerência estética e formal notável no modo como vai de encontro a uma família suburbana, entre a apatia e o desamor, no seu quotidiano a preto e branco


- O Sangue, de Pedro Costa
Midas Films
No ano de todas as homenagens a Pedro Costa, a grata oportunidade de rever o seu filme, de há 20 anos, que já pronunciava todo o seu génio. A soturna, e ainda assim a mais solar, obra de Costa vem acompanhada dos saudosos comentários de Benard da Costa


O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher
Warner Bros
Foi a entrada de leão e saída de sendeiro desta edição dos Óscares. O filme em que Brad Pitt rejuvenescia, numa adaptação de Scott Fitzgerald, chegou com 13 nomeações, mas apenas levou a estatueta em categorias menores



O Homem no Arame, de James MarshUm muito equilibrado documentário, vencedor do Óscar da categoria, ao acompanhar em retrospectiva Philipper Petit, na sua louca, funâmbula e poética missão: atravessar as Torres Gémeas, suspenso a 410 metros de altitude



Quem Quer Ser Bilionário, de Danny Boyle
Zon Lusomundo
Uma tragicomédia que alia a sordidez e sorriso, a um ritmo trepidante, musical e com uma filigrânica estrutura narrativa. Apesar da repugnância da crítica portuguesa arrasou nos Óscares: oito estatuetas, inclusive o de melhor filme e melhor realizador


- Gran Torino, de Clint Eastwood
|Warner Bros
Um filme sobre o crescimento. De um miúdo, de um velho e de um país que é construído com os sedimentos de emigrações acumuladas. É pena que os extras se consagrem exclusivamente à questão automobilística

- Tempos de Verão, de Olivier AssayasAtalanta
Um filme bem francês, com uma dose de nostalgia temporal e espacial, ao mesmo tempo. Uma velha mãe despede-se dos filhos, mas as suas pegadas neste mundo, as suas mobílias, os seus quadros, a velha casa permanecem, como uma cicatriz

- Almoço de 15 de Agosto, de Gianni Di GregórioAtalanta
Uma comédia à italiana, de uma singeleza desconcertante, em que a dignidade e a decadência coexistem. Durante o feriado de 15 de Agosto, um cinquentão toma conta de umas velhotas, numa Roma abrasadora e deserta. Tão simples quanto isto.

- Deixa-me Entrar, de Tomas AlfredsonCastello Lopes
O melhor filme de vampiros da temporada não vem da Transilvânia e muito menos dos EUA, mas da Suécia. Uma história de seres nocturnos e sanguinários que afinal também é uma história de adolescente, num país cheio de design e civilização


- Caos Calmo, de Antonello GrimaldiMidas
Uma das melhores obras que chegou às salas há precisamente um ano. A realização não é de Morreti, mas o carimbo morretiano está lá ( ele interpretou e escreveu o guião).Um filme em suspensão, onde a espera é o que permite encontrar a ordem no caos

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Encontro imediático com Agnés Varda


A 'Respiradora'



Não é a primeira vez que Agnés Varda, «a avó da Nouvelle Vague», vem a Portugal, mas é a sua estreia, enquanto autora de instalações. Depois da retrospectiva da sua obra na Cinemateca, no âmbito da Festa do Cinema Francês, em Lisboa, e antes da inauguração das exposições em Serralves, no Porto, Agnés, 81 anos, encontrou-se com jornalistas na Embaixada de França. Falou-se da sua cinematografia em marcha-atrás, tal como ela a apresenta no último e autobiográfico filme As Praias de Agnés. E de como ela se manteve sempre num registo experimental e marginal, às vezes híbrido, entre o documentário e a ficção, ao sabor da inspiração, deixando sempre uma janela aberta. Para deixar passar as correntes de ar e o acaso - a que ela chama o seu «assistente de realização». Por isso, Agnés Varda gosta que se diga que os seus filmes têm «inspiração e respiração». E não deixa de pensar que a mesma pessoa que faz filmes sobre vagabundos e respigadores fica instalada em bons hotéis e tem sempre um bouquet à espera. Considera-se «artista e artesã», pela forma quase manual com que se dedica aos filmes, gosta de «partilhar emoções e conhecimentos» e admira Manoel de Oliveira por continuar a filmar: «É um caso médico». Quanto a ela, não pretende «ser heroína». «Procuro adaptar-me às minhas capacidades, consciente das minhas forças e fraquezas». Prefere dedicar-se às video-instalações: a próxima, de apenas sete minutos, chama-se La Mer Mediterranée Avec Deux R et un N Entre Sete et Agde. De resto, continua a vaguear entre a memória e a falta dela, «como nas águas de um rio»: «Je souviens pendant que je vis».

O homem da máquina de filmar


Entrevista com Jonas Mekas





Fugiu da Lituânia, nos anos 40, após escrever um poema anti-estalinista, mas foi apanhado pelos nazis e passou um ano num campo de trabalho na Alemanha, a que se seguiram quatro num campo de refugiados. Até que foi acolhido pelos Estados Unidos. A história de Jonas Mekas, 87 anos, confunde-se com a História do Século XX. Falámos com este realizador pioneiro, homenageado no DocLisboa, considerado o pai do cinema avant-gard nova-iorquino

Dez minutos antes da nossa conversa, encontramos Jonas Mekas na rua, rodeado por uma equipa de cinco pessoas. Um deles, filma os seus passos, enquanto atravessa a passadeira para a Culturgest. Quando finalmente chegamos à conversa, temos a sensação de estar a falar com um parente próximo de William S. Burroughs. Ele esteve lá, a sentir o ritmo da Beat Generation.

Desde os anos 50 que Jonas Mekas mantém um diário filmado. Vai recolhendo pedaços da vida e filmando os amigos. O que, por si só, poderia não ser nada de extraordinário caso a sua vida não fosse tão cheia e os seus amigos tão famosos. Nos seus filmes entram Andy Warhol, John Lennon, Yoko Ono, Alen Ginsberg, Salvador Dali, Martin Scorsese ou o clã Kennedy.

Formou uma das mais importantes instituições do cinema independente americano, a Anthology Film Archive, e é considerado para muitos realizadores, como Jim Jarmusch, uma influência decisiva. Trabalhador inveterado, já depois dos 80, dedicou-se a projectos megalómanos, como os 365 filmes, que disponibilizou, à razão de um por dia, no seu site na Internet, ao longo de 2007. E as 1001 noites filmadas que agora prepara. Além de cineasta, é também vocalista de quatro bandas nova-iorquinas (uma delas com John Zorn), artista plástico e escritor. Uma enorme retrospectiva da sua obra está a ser preparada pela Galeria Serpentine, em Londres, para 2010.


JL: Comecemos pelo futuro. Está a preparar um grandioso projecto, que se chama 1001 Noites na Internet. Em que consiste?

Não é assim tão grande... O projecto das 1001 Noites segue-se ao dos 365 Dias. Durante o ano de 2007, preparei uma curta-metragem por dia, que esteve disponível no meu website. Foi um desafio tão grande e cansativo, que precisei de um ano de intervalo para fazer outras coisas. Nesse período fiz a longa-metragem Lithuania and the Colapse of USSR. Agora estou a começar lentamente o projecto das 1001. Mas não será diário, isso seria demasiado exigente. Também não tenho a certeza se estará disponível na Internet. E, apesar de se chamar 1001 Noites, nem todos os filmes se passam de noite, de resto, tal como acontece nos contos árabes.


Mas vai contar 1001 histórias?!

Eventualmente… demorará alguns anos. Mesmo que contasse uma por dia, demoraria cerca de três anos. Mas esta é apenas uma das coisas que estou a fazer... Vou lançar dois livros na próxima Primavera...

De poesia?

Não, um de pequenas histórias, que fazem uma espécie de autobiografia. O outro é continuação dos meus diários escritos. Além disso, estou a preparar a maior exposição que já alguma vez tive, que será na Serpentine Gallery, em Londres. Talvez inclua o projecto dos 365 dias, bem como algumas peças sonoras, várias instalações. Vou apresentar também grande parte dos meus filmes inacabados.

Desde 1950 que faz um Diário Filmado. Faz ideia de quantas horas já gravou?

Não sei, mas posso dizer que a parte editada em filme (tirando o vídeo) deve rondar as 30 horas.

Pouco depois de chegar aos Estados Unidos, uma das suas primeiras inquietações foi pedir dinheiro emprestado para comprar uma câmara de vídeo. Porquê?

Simplesmente precisava de filmar. As pessoas têm necessidades diferentes. Eu tinha a necessidade de filmar.

Começou por filmar pedaços da sua vida. Porquê? Porque não quis fazer um filme convencional?

Queria dominar o instrumento de trabalho, antes de tentar fazer um filme à Hollywood. No princípio foi apenas isso. Uma espécie de teste. Essas primeiras imagens podem ser vistas em Lost Lost Lost.

Na Lituânia, quando fugiu para Ocidente com o seu irmão, estava a fugir do nazismo ou do estalinismo?

Na verdade de ambos. Mas só consegui escapar de um (o estalinismo). O outro apanhou-nos.

Qual dos dois mais o assustava?

Naquela altura, os soviéticos. Tínhamos a esperança que se chegássemos a Viena talvez conseguíssemos passar para a Suíça. Na verdade – o que eu vou dizer agora nunca contei em nenhuma entrevista –, chegámos a fazer um contacto com pescadores dinamarqueses que nos levariam à Suécia. Mas nunca conseguimos lá chegar.

Ficou um ano num campo de trabalhos forçados em Hamburgo, e depois foi para os Estados Unidos. Como?

Não emigrei. Fui levado pelas Nações Unidas. Depois da Guerra, passei quatro anos num campo de refugiados. Esses campos foram desmantelados e a ONU levou as pessoas para fora dali. Uns para o Canadá, outros para a Austrália. Eu fui parar aos Estados Unidos.

Agradou-lhe o destino?

Não me fazia qualquer diferença, o que eu e o meu irmão queríamos era sair dali e ir para qualquer sítio, para onde pouco importava. Tivemos a nossa dose de campo de refugiados. Aconteceu que cheguei a Nova Iorque numa altura muito interessante, em que estava muita coisa a acontecer. Não estou a falar apenas de cinema. Falo da beat generation, do teatro, da música, do expressionismo e depois do cinema independente. Tudo aconteceu ali entre os anos 50 e os anos 70.

E o Jonas Mekas estava mesmo ali no meio, como é que fez para conhecer essa gente toda?

Aconteceu de forma natural, frequentávamos os mesmo sítios, os mesmos bares, os mesmos espectáculos.

Na Lituânia escreveu um poema anti-estaline...

Foi o que me obrigou a sair de lá...

Só voltou nos anos 70, para visitar a sua família, como se pode ver no filme Remiscences of a Journey to Lithuania... Já era seguro na altura?

Não. Mas a União Soviética já começava a abrir um bocado. Estaline já tinha morrido. Lentamente notavam-se algumas mudanças. Apesar disso, tive dificuldades. Durante essa visita não dei um passo sozinho. Não pude filmar a minha mãe e o resto da família sem ser observado.

Depois do fim do regime soviético e da independência da Lituânia, em 1992, regressou ao seu país?

Vou lá de vez em quando. Tenho lá um irmão e vários parentes.

Criou o Anthology Film Archive, um dos mais importantes centros de cinema de vanguarda nos Estados Unidos. Hoje qual é a sua função?

Eu mostro-lhe o prospecto... É muito activo. Todos os dias tem quatro ou cinco diferentes programas, com duas salas de cinema, biblioteca e preservação de cópias. Como se fosse uma Universidade de Cinema.

O que o levou a criar o AFA?

Era necessário. Apercebemo-nos de que não poderíamos combater Hollywood sozinhos. Não podemos viver os nossos melodramas sós. Ninguém exibia filmes artísticos, por isso montámos o nosso próprio cinema. Ninguém preservava os nossos filmes, por isso criámos um departamento. Ninguém escrevia sobre os filmes, formámos as nossas próprias publicações. Ninguém os distribuía, criámos uma distribuidora. Somos uma nação independente. Até aos anos 70 não havia qualquer apoio ao cinema avant-garde.

Num dos seus filmes, afirma que o cinema não tem 100 anos, que o cinema é e será sempre novo. Mas é possível estar sempre na vanguarda?

Sim. Quando os inimigos eliminam a primeira linha de soldados, a segunda passa a ser a linha da frente. E por aí a fora. Há sempre uma linha da frente. Quando é abatida significa que passou à História, tornou-se consensualmente aceite ou entrou na moda. Foi absorvida pela sociedade. Fala-se muito de gerações. Antes essas gerações artísticas surgiam de dez em dez anos, agora, com a vertigem tecnológica, tal pode acontecer de três em três anos.

Em muitas das suas obras filma os seus amigos. Transformou os vídeos caseiros numa forma de expressão artística?

Os filmes caseiros não são novidade. Em 1965, havia mais de seis milhões de câmaras de oito milímetros nos Estados Unidos. Muitas delas ficaram guardadas nos armários. Até a Jackie Kennedy tinha uma câmara na sua casa. Eu sei porque estive na casa deles. A Jackie foi ao armário, tirou uma gabardina e lá estava a câmara guardada no bolso. Tinha-se esquecido da máquina ali. Depois ela arrumou-a no mesmo sítio. Há cerca de dois anos, um amigo meu que é professor de Harvard, tentou saber o que é feito dessa câmara. Mas disseram-lhe que não havia câmara nenhuma. De qualquer forma, com seis milhões de câmaras, deve haver filmagens até ao fim do mundo. Eu tenho uns vídeos que alguém fez na Índia, nos anos 30, a cores e em condições perfeitas.

Filma muito, mas imagino que há momentos em que se arrepende de não estar a filmar...

Acontece a todos. A mim bastante. Muitas vezes questionam-me se não me sobrou nenhum material das filmagens que fiz com Andy Warhol. Se tudo que filmei está nos meus filmes. Aquilo passou-se de forma muito natural. Cada um de nós estava a fazer o seu trabalho. Éramos todos amigos. Fazíamos aquilo porque nos dava prazer, porque nos divertia. Eu digo, por graça, que se soubesse que haveria tanta procura teria filmado pelo menos umas dez horas. E depois vendia.


terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Pára ou a stôra dispara

O Dia da Saia, de Jean-Paul Lilienfeld





O stress pode matar. Em Um Dia de Raiva (1993), de Joel Schumacher, Michael Douglas é um cidadão comum que certo dia passa-se no trânsito. Em vez de apenas buzinar com o ‘vizinho’ da frente, abandona o carro no meio de um engarrafamento na auto-estrada e vai para casa, pelo caminho desata aos tiros. Entendemos aquela personagem. A tensão é tal, que à mínima faísca o barco explode.

Em O Dia da Saia, de Jean-Paul Lilienfeld, Isabelle Adjani é uma professora do ensino secundário numa turma problemática. Enfrasca-se em comprimidos antes de cada aula, para sobreviver ao martírio. E vive no limiar da sanidade, já pendendo para o outro lado, tal a violência das afrontas dos seus pupilos. Contudo mantém-se intransigente nos seus princípios: a escola é laica, a matéria é para ser dada e as professoras podem usar saia, sem que tal signifique uma provocação aos alunos. Num dia de excessos, descobre uma pistola na mochila de um dos alunos e, entre ameaças e contra-ameaças, ameaça-os. Empunha a arma e sequestra a turma (ou o que sobra dela) e… dá a sua aula. Calma e tranquilamente dá a sua aula, de Língua Francesa sobre Moliére. Assim mesmo, sem ser às três pancadas. A escola funciona à lei da bala. Ao longo destas horas de sequestro as personagens vão-se descobrindo, cada uma com as suas tragédias. Sem complexo de Estocolmo, alguns passam-se para o lado da professora. A miséria é tal que uma das alunas diz: «Eu queria ficar sequestrada para o resto da vida».

A professora faz reféns sem saber o que reivindicar. E acaba por exigir que o Ministério da Educação institua o dia da saia: uma vez por ano todas as professoras devem usar saia. Medida simbólica que significa uma recusa a limitações das liberdades sociais em nome dos perigos dos alunos. A professora não cede.

O Dia da Saia acaba por ser uma radicalização do discurso apresentado por Laurent Cantet, em A Turma. Um alerta máximo para a situação dos professores nas escolas mais problemáticas. No filme de Cantet, mostravam-se os desequilíbrios do sistema, em que todos os direitos pendem para o lado dos alunos. Aqui exagera-se o sofrimento dos professores ao limiar do insuportável, desenhando os alunos como delinquentes. Tal como Michael Douglas em Um Dia de Raiva, é inevitável compreendermos aquela professora desesperada e ficarmos do seu lado. Apenas uma ideia é perigosa: é certa a defesa da escola laica, mas o facto da totalidade dos alunos/delinquentes serem muçulmanos (serão os franceses inocentes?), pode criar a confusão ideológica de cruzada laica.

O filme de Jean-Paul Lilienfeld é sobretudo uma reflexão sobre uma escola (não só a francesa) a que tudo se exige. A certa altura o reitor resume o seu papel como o de bay-sitter social. O problema é complexo, mas está a montante. Para termos uma boa escola precisamos de ter ‘boas famílias’. E isso só se consegue com um trabalho social mais profundo, feito de raiz. Afinal, não é esta a França da liberdade, igualdade e fraternidade.

*

Junntamente com esta longa-metragem passa a curta de António Ferreira, Deus não quis. Funciona como uma espécie de teledisco da canção popular Laurindinha (se ele vai para a guerra/ deixá-lo ir/ ele é rapaz novo/ ele torna a vir), colocando-a no contexto da Guerra Colonial. É um exercício imaturo, escolar e desinteressante, que naturalmente não interessou aos melhores festivais. Esta estreia soa a oportunidade desperdiçada, atendendo às dificuldades que as curtas portuguesas têm em passar em sala.


segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Scorsese, um amigo americano


An American film director at work : Martin Scorcese, de Jonas Mekas



Jonas Mekas conhece Martin Scorsese desde a altura em que este frequentava a escola de cinema. Quando soube que Scorsese estava em rodagem pediu-lhe se poderia acompanhar as filmagens durante duas semanas. O filme em questão é Entre Inimigos, com Leonardo Di Caprio. Quem estiver à espera de um documentário tipo de rodagem, mais vale observar os extras da edição em DVD. Mais do que a perspectiva de Scorsese, encontramos aqui o olhar de Mekas, num filme experimental, com uma câmara absolutamente livre que foge a planos convencionais e não perde tempo com grandes explicações. Tal como em muitos outros filmes do realizador, também aqui Mekas é o sujeito. À vista desarmada pode parecer apenas um vídeo amador. É mais do que isso, apesar de grande parte da filmografia de Jonas Mekas consistir em recolher imagens de amigos.

Culturgest, hoje, dia 19, às 22.30


sábado, 17 de Outubro de 2009

Bilhetes para o filme de Ken Loach!

Quer vir connosco ao cinema?
O FINAL CUT tem convites duplos para oferecer para o último filme de Ken Loach, Looking for Eric, no Cinema São Jorge, segunda-feira, dia 19, às 21 e 30 (para saber mais sobre o filme ver o post abaixo)


Para ganhar convites duplos para esta sessão, só terá de responder correctamente à seguinte questão, enviando-a, juntamente com o seu nome, para finalcutvisao@gmail.com


No filme de Ken Loach quem é que representa o papel de Eric Cantona?


a) Eric Cantona


b) Javier Bardem


c) Joaquim de Almeida


d) Johnny Depp




Boas Visões!